quarta-feira, 11 de junho de 2014

Coletivismo versus Individualismo

A psicologia evolucionista é tão parcimoniosa nas explicações dos fenômenos humanos que até eu mesma, que já estudo o tema há 8 anos, fico de queixo caído com alguns estudos.

Geert Hofstede é um pesquisador que criou uma medida de diferenciação cultural entre as populações. Uma das medidas mais famosas da sua escala é a que compara tendências ao individualismo e coletivismo.

Culturas mais individualistas valorizam mais o aprendizado por tentativa e erro e a autonomia. Culturas mais coletivistas valorizam a conformidade às normas do grupo e a aprendizagem por meio da autoridade (autoridade representada por membros mais velhos ou mais sábios). Veja o mapa mundial sobre a medida de individualismo em vários países do mundo (os EUA são o país que tem a nota mais alta neste quesito, ou seja, são mais individualistas):

Qual a explicação dos relativistas culturais para essas diferenças? Socialização. A socialização e as normas de cada cultura determinam às tendências dos países em termos mais individualistas ou mais coletivistas.

Mas como vocês bem sabem, explicações sobre a socialização são tautológicas, ou seja, apresentam a socialização tanto como causa quanto efeito das diferenças na escala de individualismo de Hofstede. Pois bem, por indicação do meu supervisor canadense, Gad Saad, li o artigo Fincher, C. L., Thornhill, R., Murray, D. R., & Schaller, M. (2008). Pathogen prevalence predicts human cross-cultural variability in individualism/collectivism. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences275(1640), 1279-1285.

Os autores explicam que as tendências individualistas ou coletivistas de determinada cultura/população/grupo são uma adaptação à prevalência de patógenos no ambiente. Ou seja, há uma correlação positiva entre patógenos no ambiente e tendência coletivistas e uma correlação negativa entre patógenos no ambiente e tendências individualistas.  No caso deste artigo, os autores mediram à concentração de patógenos por meio das seguintes doenças: leishmaniose, tripanossomíase, malária, esquistossomose, filariose, lepra, dengue, tifo e tuberculose. 

As tendências coletivistas são uma adaptação ao patógenos pois culturas coletivistas são mais xenofóbicas, ou seja, discriminam estrangeiros como uma forma de evitar contaminações com agentes patogênicos estranhos. Outra característica de culturas coletivistas é a conformidade com o grupo. A maior parte das normas culturais envolve a preparação de comidas (vide o Velho Testamento e suas várias menções a comidas proibidas - carne de porco é um vetor de transmissão de muitas doenças que mencionei anteriormente). 

Dessa forma, os autores controlaram uma série de variáveis que podem ser correlatas ao índice de patógenos no ambiente e mesmo assim, a correlação  negativa entre patógenos e tendência ao individualismo se manteve em todas as medidas feitas pelos pesquisadores. Veja o gráfico abaixo:
Outra conclusão curiosa deste estudo é que os autores afirmam que renda per capita de uma região pode também ser explicada pelo patógenos, e não por tendências individualistas: os patógenos são, obviamente, um inibidor do crescimento econômico, pois doenças infecciosas são prejudiciais ao desenvolvimento econômico das pessoas.  

Um comentário:

  1. "As tendências coletivistas são uma adaptação ao patógenos pois culturas coletivistas são mais xenofóbicas, ou seja, discriminam estrangeiros como uma forma de evitar contaminações com agentes patogênicos estranhos"


    Mentira.
    Coletivismo não é necessariamente nem antixenofóbico muito menos xenofóbico, depende do o indivíduo entende como coletivo. Uma pessoa pode dizer que coletivo são todos os humanos ou mais que isso(ou seja, anti-racista), enquanto outros pode ser coletivistas apenas em relação ao um grupo seleto, como uma raça(como eram os nazistas).
    O próprio mapa que você postou mostra que coletivismo e racismo não estão relacionados, por motivos óbvios.

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